mardi 15 octobre 2013

Fragments de "Personne(s)" traduits en portugais

 Demain, à la Casa Fernando Pessoa de Lisbonne, seront lus, en français puis en portugais, quelques fragments de Personne(s), mon essai qui paraît demain, justement, dans la collection "Le Livre/La vie", aux éditions Cécile Defaut. Tiago Pires Marques a eu la grande générosité de se charger de cette traduction. Et les textes seront lus en portugais par Vasco Araujo.
On peut trouver ces fragments en portugais ci-dessous.


personne(s)



Excertos do livro de Sarah Chiche*

Leitura de Sarah Chiche, Vasco Araújo e Tiago Pires Marques

Lisboa – Casa Fernando Pessoa – 16 de Outubro de 2013


“É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu; transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa.”

Bernardo Soares, Metafísica


56

Os Gregos chamavam eutimia a esse estado de tranquilidade da mente e do corpo em que o homem está reconciliado consigo mesmo e em todo o sofrimento relativo à dor de existir desapareceu. Trata-se, antes de mais, de um conceito médico que encontramos no corpus hipocrático. Que o primeiro filósofo  a interessar-se por este conceito tenha sido Demócrito, o homem que, segundo nos é dito num tratado do qual nada resta, “era assombrado pela morte e vagueava – rindo - entre túmulos”, é particularmente saboroso.

57

Do desassossego em Bernardo Soares, Robert Bréchon diz ser “a incapacidade de a sua consciência flutuante, volátil,  se agarrar ao real, a si própria, ao mundo, para ser alguma coisa ou alguém”. A sua certeza de não ser nada não resulta de um artifício literário mas de uma inquietude ontológica. Deste puro sofrimento, pura certeza de que tudo é incerto, tanto os objectos do mundo quanto essa ficção a que chamamos o Eu, Bernardo Soares falaria talvez, como essa pessoa que por vezes me olha do outro lado do espelho, de convicção de inexistir.


58

Actualmente, nos serviços de psiquiatria, são numerosos os pacientes que, para justificar o seu estado, e frequentemente a jeito de pedido de socorro, colocam em primeiro plano a “depressão” de que se dizem atingidos, independentemente das suas perturbações. É o “cansaço de se ser si próprio” pós-moderno. Mas esta generalização da depressão redistribui as cartas da melancolia. Com efeito, a melancolia já não a encontramos, a não ser de maneira dissimulada, referida de passagem no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria, que se limita a evocar eventuais “características melancólicas” num “transtorno depressivo maior ou no episódio depressivo maior de um transtorno bipolar”.
No entanto, a melancolia ligava-se intimamente à condição humana. Existe, ou, mais melancolicamente, existiu, uma permanência do facto melancólico. É certo que a melancolia dos Gregos não é exactamente a mesma dos românticos, nem a de Fernando Pessoaou dos nossos contemporâneos, mas nela encontrávamos a fixidez de alguns invariantes. Ora, hoje vivemos o luto da própria melancolia.
Não se trata pois aqui de patologizar Pessoa, de avançar uma objectivação psiquiátrica dos seus sintomas, mas de nos servirmos de algumas ferramentas da velha clínica, que infelizmente está a desaparecer, para pensar a sua relação com o mundo, na medida que ele é também “o nosso” e em que lança luz sobre as soluções que cada um de nós pode inventar quando confrontados com o luto e a perda.
Parece-me que uma chave essencial da melancolia pessoana se encontra no estatuto do objecto no cerne do processo melancólico, tal como concebido em “Luto e melancolia”, texto que Sigmund Freud escreveu sem dúvida em 1915 mas publicou em 1917. A melancolia caracteriza-se, diz Freud, por “um humor depressivo profundamente doloroso, uma supressão do interesse pelo mundo exterior, pela perda da capacidade de amar, pela inibição de toda a actividade e pelo abaixamento do sentimento de si, que se manifesta em auto-censuras e auto-recriminações, e se intensifica até se tornar numa espera delirante da punição.” Estas auto-censuras devem ser compreendidas como acusações contra um objecto de amor que já não deixa ver senão a sua face negra e são desviadas desse objecto para o Eu. O melancólico, mais do que gritar o seu ódio pelo mundo, nulifica-se e compraz-se na sua própria abjecção. Na realidade, o objecto não está forçosamente morto, mas está perdido enquanto objecto de amor. E subitamente, esse fragmento lancinante do Livro do Desassossego intitulado “Nossa Senhora do Silêncio” torna-se no lamento por uma morte fictícia vivida de maneira bem real:

“A ti posso-te conceber mãe, adorando-o, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires.(..)
Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas nocturnas do meu desassossego. (…)
As tuas mãos de tocadora de harpa me fechem as pálpebras quando eu morrer de ter dado a construir-te a minha vida.”

-          E aquele que foi essa criança, esse é meu irmão.




83

Várias passagens do Livro do Desassossego são atravessadas por súplicas a um Ente Supremo, literalmente inominável e cujo o rosto invariavelmente se escapa.

Tudo é nada, e no átrio do Invisível, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o sistema sentido do universo.”

Porque é que um melancólico como Pessoa foi tentado, num certo momento da sua existência, pelo esoterismo e depois pelo satanismo, a ponto de ler obras iniciáticas, de praticar a astrologia e de fazer horóscopos dos seus amigos e mesmo dos seus heterónimos? Será que este caminho permite apreender a articulação essencial entre melancolia e o demoníaco? Para Kierkegaard, “demoníaco” é a angústia provocada pela presença do bem, do bem como perigo de salvação, quando o homem se ligou ao mal e se enredou no seu próprio pecado. O pecado é sinónimo de desespero. E o desespero é precisamente o do melancólico: “Acabo de chegar de um serão do qual fui a vida e a alma; ditos espirituosos voavam da minha boca, toda a gente ria e me admirava – mas vim embora - e o traço aqui deve ser tão longo quanto o raio terrestre – e tudo o que queria era dar um tiro na cabeça”, escreve Kierkegaard do fundo do seu abatimento. Nestas experiências de verdade, em que o indivíduo se vê como abandonado por Deus, a tentação do nada torna-se o cúmulo da tentação.
Regressemos um instante a Luto e Melancolia, de Freud. A melancolia caracteriza-se, por um lado, por uma relação ao objecto de amor perdido colocado sob o signo da ambivalência (não apenas da nostalgia, mas também da acusação); e, por outro lado, por uma identificação narcísica ao objecto perdido, através de uma divisão do Eu e pela constituição de um duplo sádico no plano do Superego – cuja crueldade Freud caracterizará bem mais tarde, em O Eu e o Id (1923): “o investimento no objecto foi suprimido; no entanto, a libido, agora livre, não foi deslocada sobre outro objecto, mas reconduzida ao Eu [...], servindo para instaurar uma identificação do Eu com o objecto abandonado. A sombra do objecto caiu sobre o Eu [...] Tal substituição do amor do objecto pela identificação é um mecanismo importante nas afecções narcísicas.” No termo deste mecanismo, que chamamos de identificação introjectiva, o objecto, perdido no exterior é conservado no interior. O Eu identifica-se com o objecto perdido. O sujeito não se faz apenas de morto. Ele está no lugar e no espaço do cadáver. Não é esta outra forma possível de entender os lamentos de Bernardo Soares pela sua condição, lamentos ligados a um objecto amado, perdido e incorporado e recobre com a sua sombra o seu Eu?


[...]

Porque ele foi desempossado do seu Eu, o melancólico viria assim deixar-se possuir por uma sombra que se insinua no lugar e no espaço do nada que o habita. O pai de Fernando Pessoa. Depois o seu irmão mais novo. Depois o exílio, essa outra morte. Depois a loucura da sua avó. Depois a morte da sua mãe. A cada uma dessas mortes, Fernando Pessoa sente-se habitado por um nada que se alarga.
Na melancolia pessoana, é pois bem o registo demoníaco da pulsão que se exprime na sua dimensão de gozo mortal. À despossessão melancólica (“Não sou nada”) vem responder a possessão por um Outro (“Ele apoderou-se do meu corpo”). O corpo vive-se assim como não organizado, não esvaziado, invadido pelo gozo do Outro, neste caso reduzido a uma pseudo-alteridade: o diabo. Ser possuído pelo demónio, é pois ser tomado por um Outro, tipicamente o objecto mais amado e o mais odiado: é esse objecto de amor odiado, na medida em que ele abandonou o sujeito, que regressa de forma persecutória, para o sufocar.
As ideias de danação são assim, simultaneamente, o paroxismo da melancolia e o seu antídoto. Elas são a assinatura do nada no qual o sujeito se encontra e, ao mesmo tempo, um freio à hemorragia do Eu. Crer-se possuído, é pensar-se como estando cheio de um Outro, nem que seja demoníaco, e assim não totalmente vazio. Se sou vítima do diabo, é porque de alguma forma “Eu” existe ainda.
Uma vez mais, as pesquisas poéticas de Fernando Pessoa em que a linguagem recusa qualquer negociação com a perda fazem-me sonhar com o mito de Fausto, emblemático da rejeição melancólica de toda a meia-medida: à recusa da submissão à lei humana, à finitude, aos limites do poder e do saber humanos opõe-se a crença num poder total e sobre-humano (causalidade mágica, eterna juventude, poderes satânicos iguais aos de Deus).
O Doutor Fausto afoga-se num fascínio pelas profundidades pagãs da Natureza, ébrio de um desejo de fusão com o grande Todo. Não é essa a aspiração exemplar dos grandes melancólicos?
As tentações faustianas de Fernando Pessoa compreendem-se bem melhor à luz da leitura deste fragmento da “Tabacaria”, do seu heterónimo Álvaro de Campos:


3

Homero não existiu. É possível que Skakespeare tenha sido vários. Bernardo Soares é o meio heterónimo de Fernando António Nogueira Pessoa, alter ego homónimo de Fernando Pessoa. A memória é uma ficção. As nossas recordações são reconstruções de reconstruções. Nasce-se só e morre-se só, a boca fendida por um grito. O instante está já perdido no momento em que passa. O mais belo dos rostos tenta em vão esconder o cadáver. É impossível saber ao certo se alguém mente ou diz a verdade. Todo o livro é falhado. O amor é uma farsa contada por um cego a um surdo. A tabacaria onde esta foi frase foi escrita não é mais que uma hipótese. O Eu é um terreno movediço e o mundo um simulacro – mas o café é bom.





*Tradução de Tiago Pires Marques. 

1 commentaire:

  1. J'ai bien l'impression que votre travail a l'air passionnant, et il semble rendre à Pessoa toutes les dimensions dans lesquelles cet auteur peut être interprété, lu, apprécié. Bravo Sarah!

    RépondreSupprimer